Afinal, onde estão as pessoas de bom senso?

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“INEXISTE NO MUNDO coisa mais bem distribuída que o bom senso, visto que cada indivíduo acredita ser tão bem provido dele que mesmo os mais difíceis de satisfazer em qualquer outro aspecto não costumam desejar possuí-lo mais do que já possuem. E é improvável que todos se enganem a esse respeito; mas isso é antes uma prova de que o poder de julgar de forma correta e discernir entre o verdadeiro e o falso, que é justamente o que é denominado bom senso ou razão, é igual em todos os homens; e, assim sendo, de que a diversidade de nossas opiniões não se origina do fato de serem alguns mais racionais que outros, mas apenas de dirigirmos nossos pensamentos por caminhos diferentes e não considerarmos as mesmas coisas. Pois é insuficiente ter o espírito bom, o mais importante é aplicá-lo bem. As maiores almas são capazes dos maiores vícios, como também das maiores virtudes, e os que só andam muito devagar podem avançar bem mais, se continuarem sempre pelo caminho reto, do que aqueles que correm e dele se afastam.”

Este é o primeiro parágrafo da primeira parte do livro “O Discurso do Método” de René Descartes, e me sirvo dele para discutir um assunto que permeia meu dia a dia com empresários e gestores: a noção de que as pessoas, nas empresas, não tem bom senso.

Vamos seguir, então, o raciocínio de René Descartes elencando os pontos que ele sugere como verdadeiros:

  1.     As pessoas podem desejar mais dinheiro, mais fama, mais poder, mais saúde, mais beleza, enfim, muitas coisas, mas definitivamente não desejam mais bom senso. Isso porque elas acreditam já possuir o suficiente;
  2.     Todas as pessoas são providas da mesma racionalidade e capacidade de julgamento entre certo e errado, o que torna verdadeira a afirmação de que, do seu ponto de vista, possuem o máximo de bom senso possível;
  3.      O que faz com que uns pensem ter mais bom senso do que os outros são os parâmetros utilizados na formação de juízo;
  4.       Estes parâmetros são fundamentais para as escolhas de cada um e podem determinar os caminhos que serão seguidos e os resultados que serão alcançados (certos ou errados; bons ou ruins).

Destas afirmações, podemos concluir que as pessoas de bom senso estão por todas as partes, inclusive nas organizações, e, além disso, estão usando o seu bom senso quando agem. O problema é que o bom senso de cada um é influenciado por suas vivências, suas verdades, suas crenças, seus valores, seus objetivos, etc. Dessa forma, é inútil reunir uma equipe e pedir que usem o bom senso na tomada de decisões esperando que o resultado seja aquele que você deseja; a probabilidade de que isso aconteça é muito baixa. Assim como é muito possível que as decisões que você toma com a certeza de que usou de extremo bom senso sejam julgadas inadequadas por muitos.

O que fazer, então? Como garantir que as ações tomadas nas empresas sejam adequadas e que todos escolham caminhos que, de fato, atendam aos objetivos corporativos? A resposta parece óbvia: fazendo com que os parâmetros que influenciam o senso das pessoas sejam semelhantes, alinhando os valores, as crenças, os objetivos de todos com os da companhia. Óbvia, mas não tão simples, afinal, como fazer esse alinhamento?

Em primeiro lugar, é fundamental ter clareza sobre o que a empresa deseja e, para isso, ela deve definir seus direcionadores estratégicos, conhecer e analisar sua cultura, e desenvolver planejamentos de curto, médio e longo prazos, deixando claros os seus objetivos estratégicos, táticos e operacionais, que precisam ser comunicados de forma estruturada aos colaboradores. Isso garantirá o alinhamento de todos? Não. Existem componentes muito individuais e particulares arraigados em cada pessoa, que influenciam suas atitudes, e, por vezes, isso pode ser incompatível com os objetivos da empresa. Neste caso, não é produtivo entrar em uma zona de atrito duradoura, muito menos fazer julgamentos pessoais, pois os resultados obtidos provavelmente serão inexpressivos. É importante reconhecer que o que é bom em algumas circunstâncias pode ser inadequado em outras e tomar as atitudes necessárias para garantir o bom desenvolvimento da empresa e do profissional. Para isso, um modelo adequado e eficiente de gestão de pessoas é essencial.

Feito isso, a companhia contará com uma boa condição de estruturação, com um grupo que conhece claramente sua cultura, seus objetivos e seu planejamento, e que tenha seus valores e propósitos pessoais alinhados com ela. Porém, as diferenças individuais ainda persistirão, e, nesse contexto, devem ser estimuladas, pois quando não há divergências de valores e objetivos, a diversidade fortalece qualquer grupo e estimula o crescimento coletivo. Neste ponto, para reduzir as eventuais dificuldades de interpretação sobre o que é mesmo bom senso na tomada de decisão, a empresa deve lançar mão de regras claras, processos definidos, modelos de gestão que favoreçam a avaliação estruturada, retornos eficazes, indicadores claros e acessíveis e, principalmente, envolvimento das pessoas e desenvolvimento de seus líderes.

Então, onde estão as pessoas de bom senso afinal? Elas estão em por toda a parte. A questão que realmente importa, na verdade, é: onde estão as pessoas de bom senso que produzam resultados positivos? Essas estão nas organizações com melhor estruturação e, em um horizonte ampliado, em sociedades com maior grau de organização e desenvolvimento.